Lavytier Collection: Seu Passe para o Extraordinário
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Há exatos 80 anos, na noite de 3 de março de 1943, a estação de metrô Bethnal Green, no coração do East End londrino, tornou-se palco de uma das maiores tragédias civis da Segunda Guerra Mundial. O que deveria ser um refúgio seguro contra os horrores da guerra transformou-se em um pesadelo de caos, negligência e desespero, ceifando 173 vidas, incluindo 62 crianças. Oitenta anos depois, a história de Bethnal Green permanece um lembrete doloroso de como falhas estruturais, tensões sociais e indiferença oficial podem convergir para criar uma catástrofe evitável. Este artigo mergulha nos detalhes do desastre, suas causas, as controvérsias políticas que o cercaram e o impacto duradouro no imaginário do East End.
O Contexto: Londres Sob Pressão
Em 1943, Londres vivia sob o peso constante dos ataques aéreos alemães, os infames Blitz. Bethnal Green, um bairro operário no East End, era particularmente vulnerável. Marcado por décadas de pobreza, habitações precárias e expectativa de vida abaixo da média, o bairro abrigava uma população resiliente, mas exausta. Na noite de 1º de março, a RAF lançou um ataque bem-sucedido contra Berlim, despachando 302 bombardeiros pesados que devastaram o sudoeste da capital alemã. Rumores de retaliação imediata da Luftwaffe espalharam-se como fogo pelo East End, alimentados pela memória dos Baedeker Raids do ano anterior, quando cidades britânicas foram alvos de bombardeios vingativos.
Dois dias depois, às 20h05 de 3 de março, a sirene de ataque aéreo ecoou. Cerca de 1.500 pessoas – famílias inteiras, idosos, crianças saindo de um cinema local e passageiros de dois ônibus lotados – correram para a estação de metrô Bethnal Green, um dos muitos abrigos subterrâneos de Londres. A estação, parte da expansão da Central Line, ainda estava em construção, projetada para abrigar até 5.000 pessoas, mas com uma entrada estreita, uma escadaria mal iluminada e sem corrimões adequados.

O Caos: Um Teste Fatal
O fluxo inicial de pessoas foi ordenado, mas às 20h17, o som de explosões próximas – na verdade, um teste secreto de foguetes antiaéreos no Victoria Park – desencadeou o pânico. A multidão, convencida de que bombas alemãs caíam sobre Londres, correu desordenadamente para a entrada da estação. Um único guarda idoso, posicionado no patamar inferior, foi incapaz de conter a avalanche humana. O ponto de ruptura veio quando uma mulher carregando um bebê tropeçou nos degraus escorregadios. Outros caíram sobre ela, criando um efeito dominó. Em minutos, 300 pessoas foram esmagadas em uma escadaria de apenas 3 metros de largura.
Uma testemunha, identificada no inquérito como Sra. Coleman, descreveu a cena com detalhes angustiantes: “Eu estava carregando meu bebê quando caí. Alguém tentou pegá-lo dos meus braços, mas outras pessoas continuavam caindo sobre mim. Eu podia ver meus cinco filhos na pilha, gritando, mas não conseguia alcançá-los.” O silêncio mortal que se seguiu foi quebrado apenas pelos gemidos dos feridos. No total, 172 pessoas morreram na hora, com uma vítima sucumbindo no hospital dias depois. Entre os mortos, 62 eram crianças, muitas com menos de 10 anos. As autópsias revelaram que apenas quatro vítimas sofreram fraturas; a vasta maioria morreu de asfixia lenta, sufocada sob o peso da multidão.
As Falhas: Um Acidente Anunciado
O desastre de Bethnal Green não foi um evento isolado, mas o resultado de uma série de falhas sistêmicas. A estação, apesar de sua capacidade teórica, era inadequada como abrigo. A entrada única, com degraus estreitos e sem corrimão central, tornava o acesso perigoso em situações de pânico. A iluminação era precária, com lâmpadas fracas que mal cortavam a escuridão. Relatórios da Defesa Civil já haviam alertado sobre a necessidade de melhorias, mas a burocracia entre o Transporte de Londres, o Conselho de Bethnal Green e as autoridades de Defesa Civil resultou em inação. Memorandos internos mostram trocas intermináveis de responsabilidades, com cada órgão apontando o dedo para o outro.
Os guardas da estação, frequentemente voluntários idosos ou mal treinados, eram insuficientes para gerenciar grandes multidões. Relatos da época descrevem guardas abandonando seus postos para buscar refúgio em pubs próximos, como o Salmon and Ball. Gangues de jovens, aproveitando a desordem, rondavam as plataformas, intimidando guardas e até cometendo pequenos furtos. Um relatório policial menciona um incidente em que um jovem brandiu uma faca na entrada, complicando ainda mais o trabalho dos socorristas.
Controvérsias Políticas: Culpas e Preconceitos
O desastre foi rapidamente politizado. No dia seguinte, uma reunião de emergência no Bethnal Green Town Hall reuniu autoridades do Ministério da Segurança Interna e da Defesa Civil. Funcionários do Conselho de Bethnal Green tentaram atribuir a culpa a uma suposta “multidão de judeus exaltados” que teria causado o pânico. Essa narrativa antissemita, comum em uma área onde o apoio à União Britânica de Fascistas (BUF) de Oswald Mosley era notavelmente forte, foi veementemente rejeitada. Alexander Maxwell, Secretário Permanente do Home Office, escreveu um enfático “NÃO!” em letras garrafais nas atas da reunião.

O Partido Comunista da Grã-Bretanha também explorou a tragédia, usando crianças enlutadas em campanhas para arrecadar fundos e processar o Ministro do Interior, Herbert Morrison, e o chefe da Defesa Civil, Almirante Edward Evans. Bethnal Green, com sua história de extremismo político, tornou-se um caldeirão de tensões. O apoio à BUF persistiu na região mesmo após a guerra, colocando a comunidade judaica local em uma posição vulnerável.
O Gabinete de Guerra, temendo que a divulgação completa dos detalhes pudesse incentivar novos ataques alemães, optou por suprimir o relatório completo do inquérito conduzido por Laurence Dunne. Herbert Morrison justificou a decisão, argumentando que “várias pessoas perderam o autocontrole em um momento particularmente infeliz”. Essa frase, vista como uma tentativa de minimizar a responsabilidade oficial, gerou indignação entre os moradores. Documentos sensíveis sobre o desastre permaneceram confidenciais por décadas, e é notável que Morrison não mencione o incidente em sua autobiografia de 1960.
O Legado: Uma Memória Dolorosa
O desastre de Bethnal Green expôs as desigualdades gritantes de Londres durante a guerra. Enquanto abrigos em áreas mais ricas, como o West End, eram frequentemente bem equipados, os do East End, como Bethnal Green e o abrigo de Tilbury (descrito como “um buraco do inferno” por observadores), eram negligenciados. A tragédia questiona a narrativa romantizada dos londrinos enfrentando o Blitz com coragem unificada, revelando como a indiferença oficial e as tensões sociais amplificaram o sofrimento dos mais pobres.
Em 2017, um memorial permanente, conhecido como Stairway to Heaven, foi inaugurado próximo à estação, honrando as vítimas e servindo como um lembrete da tragédia. Placas com os nomes das 173 vítimas, incluindo as 62 crianças, foram gravadas, e a escultura captura a angústia daquele dia fatídico. Para os moradores do East End, o desastre permanece vivo na memória popular, um símbolo de resiliência, mas também de injustiça.
Por Que Bethnal Green Ainda Importa?
Oitenta anos depois, o desastre de Bethnal Green ressoa como um alerta. Ele destaca a importância de infraestrutura adequada em tempos de crise, a necessidade de responsabilidade governamental e os perigos do extremismo político que explora tragédias para fins próprios. Mais do que isso, a história de Bethnal Green humaniza as vítimas – famílias comuns, crianças brincando após um filme, trabalhadores buscando segurança – que pagaram o preço final pela negligência coletiva.
Ao caminhar pela estação de metrô Bethnal Green hoje, é fácil esquecer o peso de sua história. Mas as vozes daqueles que se perderam naquela escadaria escura continuam a ecoar, exigindo que nunca mais permitamos que a indiferença e a desorganização transformem um refúgio em uma armadilha mortal.
