A ararinha-azul, cientificamente denominada Cyanopsitta spixii, ocupa um lugar singular no imaginário ambiental brasileiro. Não se trata apenas de uma ave rara, mas de um símbolo: da perda, da tentativa de reparação e da delicada fronteira entre esperança e imprudência quando se intervém na natureza. Endêmica da Caatinga, foi oficialmente declarada extinta em vida livre no início dos anos 2000, após décadas de pressão combinada entre tráfico ilegal, destruição de habitat e captura predatória. Sua sobrevivência, desde então, passou a depender quase exclusivamente de programas de reprodução em cativeiro.
Em 2020, um acordo firmado entre o governo brasileiro e a organização alemã Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP) marcou uma nova fase nesse esforço. À época, a entidade detinha a maioria dos indivíduos vivos da espécie. O pacto permitiu a transferência gradual das aves para o Brasil, com objetivo claro: reconstruir uma população viável em território nacional e, finalmente, restabelecê-la na natureza. Dois anos depois, em 2022, cerca de vinte indivíduos foram soltos no Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul, em Curaçá, no norte da Bahia.
Nos meses subsequentes, o projeto começou a produzir seus primeiros sinais de êxito. As aves passaram a explorar o território, formar casais, reconhecer recursos naturais e, de forma simbólica e concreta, voltaram a nascer filhotes em ambiente selvagem. Até novembro de 2025, onze indivíduos permaneciam vivos em vida livre — nove reintroduzidos e dois nascidos na própria Caatinga. Um número pequeno, mas carregado de significado.
Esse quadro, no entanto, seria brutalmente interrompido.
A ameaça silenciosa
Em abril de 2025, um filhote nascido em ambiente natural apresentou alterações incomuns na plumagem. Penas descoloridas, crescimento irregular e sinais iniciais de debilidade levantaram alertas. O diagnóstico confirmaria o que até então era considerado improvável: circovírus de psitacídeos, agente causador da Doença do Bico e das Penas, patologia altamente contagiosa e sem tratamento curativo conhecido.
O circovírus compromete o sistema imunológico das aves, provoca deformidades progressivas no bico, perda de penas e elevada vulnerabilidade a infecções secundárias. Sua presença em populações silvestres na América do Sul não possuía registros anteriores confirmados. Historicamente, os casos estavam restritos a aves de cativeiro e populações exóticas, sobretudo na Austrália e em centros de reprodução espalhados pelo mundo.
A situação evoluiu rapidamente. Em junho daquele ano, treze aves mantidas em estruturas de suporte ao projeto, próximas ao sítio de reintrodução, também testaram positivo. Em julho, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) determinou a suspensão imediata do programa e ordenou a captura dos indivíduos soltos, para contenção sanitária e avaliação.
A operação foi concluída em 3 de novembro de 2025. Dias depois, em comunicado oficial, o governo confirmou: todas as ararinhas-azuis que viviam em liberdade estavam infectadas. Com isso, a espécie voltava, pela segunda vez, ao status formal de extinta na natureza.
Falhas, suspeitas e embates
A origem do vírus ainda não foi oficialmente esclarecida, mas as investigações apontam para falhas graves em protocolos de biossegurança. Segundo documentos analisados por técnicos do ICMBio, uma das aves destinadas ao envio da Europa para o Brasil, em janeiro de 2025, já apresentava resultado positivo para circovírus. A informação não teria sido devidamente comunicada às autoridades brasileiras, contrariando diretrizes internacionais de reintrodução definidas pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).
A instituição parceira no Brasil, a BlueSky Bio-Resources, contestou essa narrativa, alegando que a contaminação poderia ter ocorrido por contato com outras aves da região. Contudo, essa hipótese encontra resistência em parte da comunidade científica, uma vez que não havia registro prévio de circulação do vírus em populações selvagens brasileiras.
Em meio às divergências técnicas, houve também embate institucional. O ICMBio relatou dificuldades de acesso aos recintos, entraves na aplicação de medidas sanitárias e resistência inicial a intervenções mais invasivas, como exames individuais e capturas. Em novembro, o órgão aplicou multa de R$ 1,2 milhão à entidade responsável pelo manejo em território nacional, por descumprimento de protocolos sanitários.
O dano invisível
Para além da ararinha-azul, o episódio levanta uma questão mais profunda: o risco de disseminação do patógeno em espécies nativas da Caatinga. A preocupação recai, especialmente, sobre a arara-azul-de-lear, também ameaçada de extinção e habitante de regiões próximas. A introdução de um vírus exótico em um ecossistema sensível carrega consequências imprevisíveis, capazes de afetar toda uma cadeia ecológica.
Apesar de nenhuma morte por circovírus ter sido confirmada até o momento entre as ararinhas infectadas, especialistas alertam que os efeitos podem ser tardios e graduais. A doença compromete a saúde ao longo do tempo, podendo transformar a sobrevida em um processo lento de desgaste fisiológico.
Entre o fracasso e a possibilidade
O impacto simbólico desse retrocesso é profundo. O projeto, que representava uma das iniciativas mais ambiciosas de reintrodução de fauna no país, agora se vê suspenso por tempo indeterminado. No entanto, o cenário não é de colapso absoluto.
A população em cativeiro — estimada entre 300 e 400 indivíduos no mundo — permanece como reserva genética e esperança concreta. No Brasil, centros como o Zoológico de São Paulo vêm avançando em técnicas de reprodução assistida, manejo sanitário avançado e diversificação genética, buscando fortalecer a base para futuras tentativas de reintrodução.
Especialistas defendem que, antes de qualquer nova soltura, será necessário reestruturar completamente os protocolos: desde a origem dos indivíduos até a biossegurança dos recintos, passando por auditorias independentes, transparência de dados e supervisão internacional.
O que permanece
A história recente da ararinha-azul não é apenas um relato de falhas humanas — é um retrato das tensões que atravessam a conservação contemporânea. De um lado, o desejo legítimo de reparar perdas históricas; de outro, o risco inerente de intervir em sistemas biológicos complexos com ferramentas imperfeitas.
Ainda assim, a espécie permanece. Não mais sobre os céus da Caatinga, por ora, mas respirando em ambientes controlados, sob olhares atentos de pesquisadores, veterinários e conservacionistas. Sua ausência no horizonte natural é, paradoxalmente, o que reforça sua presença simbólica: como lembrança do que já se perdeu e do que ainda pode ser reconstruído, desde que haja rigor, prudência e, acima de tudo, responsabilidade.




