Imagine um palco onde o passado ancestral se entrelaça ao agora, evocando emoções profundas. Manifesto Elekô faz exatamente isso. Criado por Fábio Batista, o espetáculo da Cia Clanm de Danças Negras honra a orixá Obá, conectando sua lenda à realidade de mulheres negras. Com temporadas recentes no Rio de Janeiro, incluindo apresentações esgotadas em agosto de 2025, a obra pulsa com potência. Além disso, ela provoca: o que significa resiliência em um mundo desigual? Vamos desvendar essa narrativa que vibra com exclusividade e profundidade, bem como o Manifesto Elekô propõe.
Origens: Um Processo Colaborativo e Vivo
A jornada de Manifesto Elekô iniciou em janeiro de 2020, na Escola Carioca de Danças Negras, no Andaraí. Sem um roteiro rígido, Fábio Batista guiou ensaios como uma “colcha de retalhos”, unindo memórias corporais e improvisos. A pandemia paralisou encontros presenciais em março, mas o grupo adaptou-se. Bailarinas filmaram coreografias caseiras inspiradas nas Iyagbás – divindades como Obá, Oxum e Iansã. Reuniões virtuais aprofundaram estudos sobre esses mitos.
Em julho de 2020, um teaser circulou nas redes, mantendo o público engajado. A estreia teste veio em julho de 2021, com 40 minutos para espectadores selecionados. Antes, setembro de 2020 trouxe uma versão “Work in Progress” online: vídeo-dança de 15 minutos, oficinas e debates com profissionais negras, como filósofas, focando corpos femininos negros e ancestralidade. O foco era resgatar a essência do Manifesto Elekô, viva na dança.
Editais como Pró-Carioca Linguagens impulsionaram a obra. Em 2023, Manifesto Elekô chegou à CAIXA Cultural Recife, com ingressos gratuitos e oficinas afro. Em 2025, o Rio viu temporadas marcantes: junho no Centro Coreográfico (esgotados), julho no Teatro Nelson Rodrigues e agosto (13 a 24) no Teatro Municipal Carlos Gomes, com preços de R$15 a R$30. Acessibilidade incluiu Libras e reservas para vulneráveis, transgêneras e deficientes. Pós-apresentações, homenagens e diálogos com o público estenderam o impacto.
A Cia Clanm, fundada em 2012, destaca-se no livro O Teatro Negro Contemporâneo de Joel Rufino dos Santos. Fábio Batista, com experiências no Rock in Rio e na Mangueira desde 2023, trouxe visão inovadora. Fernanda Dias, na direção desde junho de 2020, reforçou o foco feminino na criação de obras como Manifesto Elekô.
Obá: Símbolo de Força e Vulnerabilidade
Obá, a “Deusa do Ébano”, é o eixo de Manifesto Elekô. Líder da sociedade Elekô – clã de mulheres guerreiras –, ela cresceu como homem, mestre em armas e vitórias bélicas. Sua beleza retinta contrasta com tragédias: enganada por Oxum, mutila a orelha por Xangô, mas é abandonada, tornando-se padroeira de injustiçados. Este contexto é parte essencial da mensagem de Manifesto Elekô.
Gestos como mão na orelha simbolizam dor; braços como espadas, luta. Menos cultuada no Brasil, Obá evoca águas turbulentas e resiliência. Uma intérprete reflete: “Obá traz energia das entranhas, um renascer pós-sofrimento.”
Narrativa: Do Mito ao Contemporâneo
Manifesto Elekô abandona linearidade por uma tapeçaria conceitual de dança, música e poesia. Começa no ancestral: anciãs em reunião, cortejo nupcial de Obá e Xangô, cheio de festa. O clímax trágico surge na mutilação – “rio de sangue” no palco, com som dramático, representando rejeição.
Transita ao presente, explorando identidades raciais, hipersexualização e abusos. Solos destacam diversidades, incluindo uma transexual em busca de liberdade. O coletivo culmina na reconstrução via Obá, com orelhas simbólicas ao público, evocando união. “O movimento é pensamento corporal”, nota a pesquisa, refletindo a essência do Manifesto Elekô.
Temas como violência e solidão das mulheres negras emergem, mas apontam saídas: liderança em 49,1% dos lares (Censo 2022), autodefinição. Dura 60 minutos, com sete bailarinas dialogando energeticamente com Obá.
Sons e Sensações: Uma Fusão Afro-Moderna
Pela primeira vez na Clanm, música viva: percussão por Kaio Ventura e Yago Cerqueira, violino por Gilbert Vilela, violoncelo por Raquel Terra. Cantigas em yorubá e bantu, como “Obá Elekô aja osi”, mesclam rituais com contemporâneo. Percussão marca mudanças; cordas adicionam tensão. Bailarinas cantam, unindo “cantar-dançar-batucar”. Espelho na cenografia reflete autoexame; luz cria mistério.
Impacto: Ecos Recentes e Legado
Encerrada em 24 de agosto de 2025 no Carlos Gomes, a temporada gerou reações efusivas. Um espectador chamou de “espetáculo lindo”, focando bravura feminina via Obá. Outro exclamou: “Que espetáculo! 👏🏾👏🏾” Alguém compartilhou alegria ao assistir. Notícias destacam exaltação à ancestralidade. O papel do Manifesto Elekô ressoou profundamente.
Manifesto Elekô desconstroi estereótipos, inspirado em bell hooks, transformando hostilidade em afeto. Processo terapêutico, com choros coletivos, marca sua essência. Questiona: Obá ilumina o agora, como previsto pelo Manifesto Elekô?
Um Chamado Eterno
Manifesto Elekô transcende arte; é um convite ao extraordinário. Em desigualdades, pulsa com sofisticação, sussurrando verdades. Para almas luxuosas, imperdível. Com temporadas encerradas, aguarde novas – o ancestral dança sempre com a filosofia do Manifesto Elekô.


















Ficha Técnica:
Direção Geral: Fábio Batista
Direção Musical: Kaio Ventura
Coreografia: Fábio Batista, Fernanda Dias e elenco
Coordenação de Produção: Elaine Rodrigues
Produtora: Jéssica Vieira
Corpo de Dança: Ana Gregório, Sabrina Sant’Ana, Talita Felizardo, Isabel Lorrayne, Dany Faria, Erika Souza, Larissa Costa e Mirian Miralles.
Voz: Sabrina Sant’Ana e Kaio Ventura
Músicos: Adriano Souzza (teclado), Fran Vieira (violino), Kaio Ventura (percussão), Lucas Viana (percussão), Raquel Terra (violoncelo) e Yago Cerqueira (percussão)
Cenografia: Cachalote Mattos
Figurino: Ricardo Rocha
Fotógrafo: Fernando Souza
Comunicação: Yuri Vieira
Assessoria de Imprensa: Alessandra Costa
Técnico de Luz: Cristiano Ferreira
Audiovisual: Blínia Messias