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Lavytier
Journal
Nº 038 Tecnologia 2 out 2026 5 min

Numa única viagem, o maior foguete do mundo levou ao espaço 1% da capacidade de internet entre países.

A SpaceX gastou mais de US$ 15 bilhões para chegar até aqui, e Musk já disse aonde quer chegar: fazer da Starlink a rede por onde passa a maior parte do tráfego do mundo. O que isso muda para quem depende de conexão aqui embaixo.


Pense num prédio de 40 andares. Agora imagine esse prédio decolando.

Essa é a escala do Starship: 124 metros de altura, o maior foguete já construído. Na segunda-feira, 28 de setembro, ele deixou a base da SpaceX no Texas e, pela primeira vez, entrou em órbita.

Não foi um voo perfeito. Um dos motores da nave desligou antes da hora durante a subida, e a missão, planejada para várias voltas ao redor da Terra, foi encerrada depois de cerca de três horas em órbita, com reentrada controlada no Pacífico.

Mas o motor não é a notícia. A notícia é o que estava no porão.

O frete, não o foguete

Dentro da nave viajavam 26 satélites Starlink de terceira geração, a V3. Eles são grandes demais para o Falcon 9, o foguete que sustentou a expansão da rede até aqui. Sem o Starship, simplesmente não sobem.

Isso explica um número que, à primeira vista, parece desproporcional. A SpaceX já investiu mais de US$ 15 bilhões no programa, conforme o registro de abertura de capital da própria empresa. O mesmo documento situa o custo de desenvolvimento do Falcon 9 em torno de US$ 400 milhões.

A diferença é deliberada. O Starship foi desenhado para levar mais de 100 toneladas à órbita e até 60 satélites V3 por viagem. A lógica é de logística, não de vaidade: quanto mais capacidade por voo, menor o custo de cada terabit colocado no céu.

Um lançamento, 1% da banda do mundo

Cada satélite V3 entrega cerca de 1 terabit por segundo de capacidade de download, dez vezes mais que a geração anterior, segundo a SpaceX. Vinte e seis satélites somam 26 Tbps.

Do outro lado da balança está a banda internacional de internet, a capacidade que conecta os países entre si. Ela chegou a 2.259 Tbps em 2026, de acordo com o levantamento anual da TeleGeography.

A divisão é direta: 26 ÷ 2.259 ≈ 1,15%.

Vale a precisão. É uma comparação de escala, não de tráfego. Capacidade de satélite se distribui pela órbita inteira, inclusive sobre oceanos e regiões desabitadas, e não equivale a dado efetivamente entregue a alguém. Ainda assim, o número mostra o tamanho do degrau.

E o degrau vai crescer. Com a nave cheia, a SpaceX afirma que um único voo acrescenta à rede cerca de 20 vezes a capacidade de um lançamento do Falcon 9 com satélites da geração anterior. Repetido em série, isso deixa de ser marco de engenharia e vira linha de produção.

De provedor a camada da internet

A Starlink já não é produto de nicho. A rede fechou junho com 12 milhões de assinantes, o dobro de um ano antes, e opera perto de 10 mil satélites.

O plano declarado, porém, vai muito além de vender antenas. Em maio, Elon Musk escreveu que, se o crescimento continuar, a Starlink vai um dia carregar a maior parte do tráfego da internet. Nesse ponto, disse ele, ela passa a ser a própria internet, e todo o resto apenas se conecta a ela. A meta citada é de mais de 100 mil satélites nas próximas gerações.

A segunda etapa também já está sobre a mesa. Nos planos apresentados a investidores, o Starship aparece como a peça que viabiliza, no futuro, satélites dedicados à computação de IA, uma alternativa aos data centers terrestres e seu consumo crescente de energia. Não por acaso, a operação de IA do grupo, a antiga xAI, hoje é um segmento da própria SpaceX.

Conexão primeiro. Processamento depois. Tudo passando pelo mesmo foguete.

O que ainda prende a rede ao chão

A ambição é real. A física e a geopolítica também.

O núcleo da internet continua sendo fibra óptica. São os cabos submarinos que carregam a comunicação entre continentes, e um único cabo moderno opera na casa das centenas de terabits por segundo. Dentro das cidades e entre data centers, a fibra segue sem concorrente à altura.

Existe ainda o limite da densidade. A capacidade orbital é compartilhada por região: quanto mais usuários sob o mesmo feixe, menor a fatia de cada um. Satélite brilha onde a fibra não chega. Onde ela chega, disputa com vantagem desigual.

E há a questão da soberania. Governos dificilmente entregam o tráfego crítico de um país a uma única empresa privada estrangeira. O caminho mais provável é o satélite como camada complementar e de redundância, não como substituto integral.

O que muda para quem decide aqui embaixo

Para empresas, o efeito prático chega bem antes da visão grandiosa.

Operações longe da fibra, como agro, mineração, logística e energia, ganham uma alternativa de conectividade que melhora a cada lançamento. E redundância deixa de ser luxo: um link de satélite ao lado da fibra reduz o risco de parada por falha física de rede, de um cabo rompido a uma obra na calçada.

Há também um efeito de mercado. Um competidor com capacidade crescendo nesse ritmo pressiona preço e prazo das operadoras tradicionais, sobretudo fora dos grandes centros.

O ponto de atenção é o mesmo de qualquer infraestrutura crítica: concentração. Depender de um único fornecedor, em terra ou em órbita, continua sendo o risco que a boa arquitetura evita.

A internet sempre foi uma obra em camadas. Cabos, torres, satélites, cada geração somando à anterior.

O voo de segunda-feira mostrou que a próxima camada começou a ser instalada em escala industrial. Ela ainda não substitui o chão. Mas já passou a disputar espaço com ele.

Quem planeja infraestrutura para a próxima década precisa, a partir de agora, olhar também para cima.

Lavytier Journal — Equipe Editorial