O X publicou o arquivo que remove candidatos oficiais das recomendações. A lista mostra exatamente quem a regra alcança — e quem ela deixa passar.
Existe um arquivo no GitHub chamado brazil_2026_election_filter.rs. São 1.573 linhas.
Dentro dele, 665 nomes de usuário. LulaOficial. FlavioBolsonaro. cirogomes. SF_Moro. ManuelaDavila. tarcisiogdf. Todos os candidatos registrados na Justiça Eleitoral com conta na plataforma.
Desde 16 de agosto, se você não segue essas contas, elas não aparecem mais no seu “Para Você”.
É o único filtro escrito para um país inteiro no código aberto do algoritmo do X. Nenhum outro governo tem o seu.
Por que conseguimos ler isso
Em janeiro deste ano, o X fez algo que nenhuma plataforma grande havia feito: publicou no GitHub o código de produção que monta o feed “Para Você”. Não um artigo acadêmico, não um resumo executivo — o código que roda. Meta, TikTok e YouTube já publicaram descrições dos seus sistemas de recomendação. Nenhum publicou o sistema.
A entrega de 13 de agosto acrescentou a camada que faltava: os filtros, ou seja, o código que decide se um post pode aparecer, e não apenas em que ordem. Foi nessa atualização que o arquivo brasileiro apareceu — dias antes de a regra entrar em vigor.
É isso que torna esta conversa possível. Nada aqui vazou. Nada foi descoberto por apuração. A lista de 665 nomes, o critério que a montou e a lógica exata do filtro estão públicos porque a própria empresa os publicou, com o endereço da base de dados do TSE anotado no cabeçalho do arquivo. O repositório passou de 29 mil estrelas.

O que muda na prática
Menos do que a manchete sugere, e vale ser exato.
Nada é apagado. Nada é suspenso. O conteúdo continua inteiro no perfil do candidato, na busca e para todos os seguidores dele. Quem segue, vê tudo.
O que o filtro remove é uma coisa só: a recomendação para quem não pediu por ela. Vale também para reposts, citações e respostas que tragam o conteúdo de volta.
A base legal é o parágrafo 1º-A do artigo 28 da Resolução TSE nº 23.610/2019. O texto obriga provedores que usam sistema de recomendação a excluir dos resultados os perfis informados à Justiça Eleitoral.
O objetivo declarado é isonomia: nenhum candidato ganha alcance algorítmico de graça.
Quem a regra alcança — e quem ela não alcança
Aqui a coisa fica interessante.
A lista tem um critério único: registro de candidatura. Estão nela as contas identificadas, oficiais, com CNPJ de campanha, prestação de contas e responsabilização legal por tudo que publicam.
Não estão na lista: influenciadores políticos, veículos partidários, perfis anônimos de alto volume, canais de campanha não registrados, contas estrangeiras opinando sobre a eleição brasileira.
Todos esses continuam sendo recomendados normalmente.
O resultado é uma assimetria concreta. A regra reduz o alcance do discurso político identificado e responsabilizável. Deixa intacto o alcance do discurso político não identificado e não responsabilizável.
Não é o que a norma pretendia. É o que ela produz.
E há uma camada a mais. A Resolução TSE nº 23.755/2026, de março deste ano, veda que provedores de sistemas de inteligência artificial ranqueiem, recomendem, sugiram ou priorizem candidatos e partidos — ainda que o próprio usuário peça.
Leia de novo essa última parte. O pedido explícito do usuário não afasta a proibição.
Vale registrar também a natureza do instrumento: resoluções do TSE são atos infralegais editados pela própria autoridade eleitoral. Não passaram pelo Congresso.
O que a Europa cobrou, e o que recebeu
A pressão regulatória sobre o X não começou aqui.
Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia aplicou multa de 120 milhões de euros à plataforma — a primeira sob o Digital Services Act. Os fundamentos foram três: selo azul apresentado de forma enganosa, repositório de anúncios deficiente e bloqueio de acesso de pesquisadores a dados públicos.
Nenhum deles tratava do algoritmo. O X recorreu em fevereiro.
Cinco semanas depois da multa, a empresa abriu o código de recomendação. E em 15 de agosto, Elon Musk anunciou que a plataforma passará a exibir publicamente quais governos pedem remoção de conteúdo, com o órgão solicitante e a base legal invocada.
Um dado que precisa acompanhar esse anúncio: segundo os relatórios de transparência da própria empresa, o X recebeu 72.703 pedidos governamentais de remoção de contas em 2024 e atendeu cerca de 70%. A taxa de cumprimento varia entre 83% e quase 99% conforme o período medido.
Publicar o pedido não é recusá-lo. Você vai saber com precisão quem mandou remover o que você não está vendo.
O que fica
Transparência não é o mesmo que discordância. O X está cumprindo a regra brasileira integralmente — apenas resolveu cumprir com a porta aberta.
E é exatamente por isso que esta conversa existe. Sem o arquivo publicado, ninguém saberia quantas contas foram alcançadas, por qual critério, nem quem ficou de fora.
A pergunta que sobra não é sobre o X. É sobre a regra.
Ela reduz o alcance de 665 contas identificadas, com prestação de contas e responsabilização legal, e não toca em nada do discurso político que circula sem assinatura. A norma alcançou os únicos que já eram fáceis de alcançar — e deixou a conversa eleitoral onde ninguém precisa responder por ela.